sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Naquele tempo, ele ainda acreditava em anjos. E por isso, não tinha medo. Naquele tempo, havia uma proteção pairando sobre a sua cabeça, e as vezes, muito as vezes ele se assombrava, com bater de asas. Olhava então, discretamente entre os galhos das arvores, ou outras vezes de sobre o telhado de sua casinha simples... e quase sempre eram apenas sabias, curuilas ou furtivas pombinhas. Rezava baixinho aos domingos na igrejinha, e quando a tarde o sol ardia, corria, corria, a brincar no pasto, chupava mangas, mastigava a cana – doce, doce – seu mundo era assim... nuvens brancas, navios de algodão cruzando os céus, azuis, azuis, um cheiro de mato verde, e o sibilar poético dos grilos. Quando a noite caia, ele tinha medo, sobretudo na quaresma, tempo de lobisomens e mulas sem cabeça, a vó percebia, benzia de quebrante, mau olhado, copo com água e brasas do fogão, raminhos molhados, espantavam o medo de assombração. Mas o tempo é senhor, passou, cresceu, mudou, se foi, e agora quase é hora de se ir.
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