segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Não!...não se preocupe em dizer algo. O silencio é feito de um material moldavel. Se eu quizer, pego tudo isso e transformo nas palavras certas pra nós. Algo que não nos machuque, nem que nos de esperanças vazias demais. Algo como: fui para Creta, volto ao amanhecer. Ai, eu fico aqui, imaginando você naquele mar azul, com todas aquelas casinhas brancas sob o sol...E os dias vão amanhecendo, os barcos todos indo e vindo no mar. E no meio de toda esta beleza atlantida, acabo por me esquecer completamente de nós.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O Fauno


(...) eis então que ele se assustou, com a tamanha beleza dos olhos do Fauno. Pensou por um breve instante, que talvez fosse por aqueles olhos serem tão pequenos – coisa que sempre o atraiu. Mas não... não fora por isso, com certeza.

Era como se derrepente o incauto Narciso, ao invés de se contemplar na superfície espelhada daquele lago...desastradamente escorregasse, unindo-se finalmente a ele, num ultimo ato de desejo e amor.

(...) e eis que o fauno continuou a sua musica. No mesmo instante, gotículas de orvalho começaram a cair como chuva, e depois folhas verdes, e ainda flores bem pequenas e amarelas volitava na noite. Foram caindo e aos poucos formaram um tapete colorido, sobre todo o pátio em frente. Enquanto isso, entre as arvores altíssimas como catedrais, corria uma nevoazinha branca...a cidade então silenciou...

o coração dele silenciou.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Não, não é saudade...É apenas algo, se mexendo no porão.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

dos mares nada sei

(...) entendo que existe uma distancia imensa, entre o meu mar e o teu. Navegamos destinos diferentes, em tempos diferentes. Nossas bussolas não apontam o mesmo leste, e até mesmo nossas luas nao se encontraram nos céus. Mas navegante que sou, encontrei teu mar, tua nau, teu cais. Quem sabe, mesmo ao fim de tarde que se anuncia. Quem sabe diante das tempestades ou das calmarias...não seja neste encontro solido terra e mar...que a delicadeza do amar se cria...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Quer saber quem sou?

Eu sou: o peregrino e a sua estrada. A mão que alimenta, a força que eleva, a fé que ampara. O lobo solitário. O menino e suas asas de papelão. Gosto dos ventos, das tempestades, das asas dos pássaros e dos anjos nos nichos das igrejas. Da água limpa, do rio corrente, do mar lambendo as pedras, de dias plenos de sol. Gosto do tempo, de coisas com tempo, do meu tempo pras coisas. Sou um homem em silencio. Musica boa, é chuva no telhado, passarinho cantando, e um docê e velho blues. De planta, sou mais um cacto, o serrado e suas veredas, Ipês amarelos em agosto. Sou caipira, de casinhas bucólicas, do mugido de vacas, do fogão a lenha, como um poema de Cora. Sou vermelho terra, café com bolinho, pão feito em casa. Cheiro bom é o do mato, de alecrim, de jasmim, da flor da mangueira. De arte, vou dos cordéis e seus impressos, de Guimarães Rosa e seu Miguelim, da Cabiria do Fellini, Almodóvar, Sidarta do Hesse. Da Macabéia de Clarice... decompletamentetodas as palavras em brasa, de Lispector. Da loucura plena de amor de Camile Clode. Da obscena Sra. Hilda Hilst. E confesso: tenho um caso de amor, com o Sr. Caio F. Abreu – cuidarei de seu dragão para sempre. Se me perguntar sobre o amor: nada sei. Mas penso nele como uma força, uma Fenix que potencializa tudo o que alimentarmos em nós. Sobre amar: amei demasiadamente certo e errado, de forma simples ou complicada, ingênua, enlouquecida... mas amei. Sei que “vou querer amar de novo, mas se não der, eu não vou sofrer”(Elis). Medo? Não tenho do escuro, mas das luzes fáceis que cegam. Bem e mau pra mim, compartilham a natureza humana, e a consciência é a vara do artista - todos os dias na corda bamba. Em mim estão vivas: as palavras de Buda, Nietsche, Freud, Jung e de minha avó. Importancia tem a paz, o amor dos meus, e a simplicidade - dos sentimentos, das coisas e das pessoas. Sobre o futuro: nada sei, mas certamente irei morar juntinho do mar. Se eu cantasse: “ando devagar porque já tive pressa, e levo este sorriso, porque já chorei demais”. Do mais, sigo em frente, cego que sou, tateando a superficie cristalizada deste grande lago, que chamamos "vida"...

a missa do sol

Acreditava na minha infância, como a terra, o barro, a estrutura, onde construi a casa que sou hoje... mas descobri a pouco que não. Minha infância não é algo solido. Ela é nuvem, vento, cheiro de mato verde. É o dia pleno de sol. Minha infância são as palavras de minha avó, e a beleza dos ipês floridos em agosto. É medo de quaresma, é a liberdade dançando em meio a chuva ...minha infância é algo imaterial, que a tudo toca e envolve...e o que torna tudo mais belo, mais morno, mais vivo...

quarta-feira, 11 de março de 2009

Vou por ai, mochila nas costas, um sonho na cabeça...
Tropeço como toda gente, mas não tem nada errado com meus pés...
é o mundo que vive em eterna construção.

(...)então me diz:que culpa tenho eu, de achar que o céu
é bem mais bonito que o chão.

falando de mãos e de sonhos

(...) abra as tuas mãos...
de decomer aos passaros,
a tantas aves famintas de sonhos,
a tanto chão carente de flores,
a tanto vento a ser semeado com teu sopro...
neste sertão, tudo é tão aspero,
(...)cante para mim uma cantiga...
que eu possa me lembrar nas tardes tristes,
que me deixe prenhe daquele orvalho que ainda nao vi,
me faça conhecer a chuva que ainda não caiu,
chega de falar das cruzes brancas na beira da estrada,
deixemos para traz, o que resseca os dias,
(...)Vem comigo ver, como é lindo o mar...

terça-feira, 10 de março de 2009

entre um cigarro, e um gole a mais

Sinto como você...vontade de chorar,
de dizer pra todo mundo que sofro,
mas só minha saliva pode curar minhas proprias feridas,
e confesso!
não pediria nunca para você, lambe-las por mim...
Então,
para que contar o que rola dentro da lona,
se a grande sacada do circo,
é desaparecer enquanto dormem os homens,
(...) Sabe,
queria mesmo, era ouvir uma balada muito louca a meia noite,
um blues,
talvez um gole de vodka,
talvez um beijo invenenado de cicuta,
só pra não acordar denovo
chorando.

09 de março daquele ano

(...) quando eu já estava prestes a gritar, e dali correr.
Quando já me imaginava escorrendo por aqueles corredores - tão limpos - e me lançando dois andares de escadas acima - para assim me libertar de forma anonima naquelas ruas chuvosas - e sujas - Deus, percebendo toda a minha agonia - ou antevendo (talvez) a mudança de todo o planejamento futuro que ele fizera a meu respeito - soprou aquela mente em minha direção.
(...)Algo novo surgiu...
um novo sorriso, quem sabe futuros amigos,
quem sabe, o que se passa na cabeça de anjos caidos...
como eu...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

reciclavel vida

(...) lá fora uma senhora empurra um carrinho, repleto de papelão. Meia idade,
vestido de florzinha colado ao corpo pelo suor da lida,
Chinelo de dedo gasto no calcanhar,
Peitos grandes de encontro ao ferro frio,
mãos,Pés,joelhos,coxas,
corpo em duro movimento.
Maquina, mãe, fera.
Lança que segue seu rumo, seu plumo, seu alvo:
a vida, dura e solida à frente,
A chuva cai...
limpa o rosto num respirar profundo.
Uma buzina ali na esquina,
alguém grita na porta do bar,
cidade, calçadas, café, tropeços, respingo
me olha nos olhos, cabelos escorridos, meio sorriso, vida compartilhada.
Um olhar pro céu, tempo abafado, segue seu rumo...
seu papelão, seu cachorro magro, molhado, tristonho.
fico e deixo a roda da vida rolar sem espanto,
em seu movimento de moinho de vento...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


“Clarice, clara iluminada,
luz incandescente e liquida,
escorrendo mente adentro,
transfigurando palavras,
em luzes fossilizadas”. (Santo)

NUVENS ESCURAS NO CÉU

(...) E derrepente, me deu uma angustia, e aquela conhecida vontade de chorar. Não! Não é uma vontade de chorar “normal”, é uma vontade de chorar por dentro, sem lagrimas explicitas – veredas escondidas em um cerrado solitário. Bioma delicado.
É uma vontade de chorar, com nuvens carregadas, que encobrem por dias o sol... É dessa vontade de chorar que eu falo. Um choro as escuras, com tudo trovejando aqui dentro – e lá fora, a visão de um menino, que as três da manha, tenta colocar a cabeça para fora da janela, na esperança de que a chuva caia e lave seus pensamentos - e aquela água límpida, delicadamente escorrendo por lugares profundos demais, vai iluminando tudo ao redor, como fagulhas quentes e úmidas, até que tudo se cristaliza.

(...) Quando eu era bem pequeno, a chuva era um momento raro de felicidade em meio a tantas “necessidades”. Se calma, a gente dormia. Se tempestade, era hora de se esconder de baixo da mesa da cozinha. Daí, como sempre acontecia, a vó jogava os ramos da ultima procissão nas brasas do fogão. Rezava baixinho, e a chuva lá fora ia se aquietando. Eu gostava destes momentos, pois quase sempre - eu e o meu irmão - dormíamos enrolados numa coberta de retalhos, encolhidos como gatos por sob a mesa. Ali na beirada do fogão. Quando acordava: café novinho, bolinho de garrafa, poças d’água, arco-íris ao longe, e aquele cheiro de mato molhado. Ah!Tudo era uma felicidade só.
Noutras vezes, sempre de noite e escondido da mãe, eu abria a tramela da janela bem devagarzinho, pra não acordar ninguém. Passava horas espiando a chuva. Colocava a mão pra fora, punha na boca. Sentia o gosto de barro das telhas. Então, ficava pensando no caminho que as nuvens faziam, para chegar até ali. Havia em mim, uma vontade imensa de voar. Voar completamente nu e no absoluto escuro.

Quando era dia, e a chuva se armava lá no alto do espigão, trazia aquele cheiro de terra... Eu corria, e pegava minhas asas de papelão. Esperava, esperava... O vento vinha... então eu fechava os olhos, batia as asas e dentro de mim mesmo, voava - como uma pipa, um pássaro, ou como todas as coisas que como eu, tinham asas.

(...) Hoje, eu fico ali naquela janela, esperando que a água jorre de alguma mina escondida, de algum pico nevado e distante. De que o tempo passe e se evapore e que de alguma forma estranha e mágica, forme tantas tempestades quanto possível. E que uma delas se apresse em chegar. De que em seu tempo caia a chuva, e que ela lave todas as estatuas sujas das praças; as folhas das arvores da rua; os prédios cinza ao longe, e a alma triste daqueles meninos que nasceram sem asas.

É nesta esperança vazia que me apego. De que tudo possa ficar limpo, de que de alguma maneira eu possa sentir novamente meus pés se elevarem do chão, e completamente imbuído da minha capacidade infantil de voar, encontre o caminho alado e exato das coisas não permitidas...

(...) Mas a tempestade nunca vem, e a garganta fica seca demais para gritar. Então choro, para regar a infância perdida, pela busca nunca alcançada e que me leva sempre mais longe. E pela sede do menino, que volta sempre, sobretudo nas madrugadas empoeiradas. (Santo)

Minhas zonas de sombra

“Quer saber quem sou? Olhe para as arvores do bosque: todas em completo silencio, enquanto murmuram suas orações”.

Li Maria Adelaide Amaral dizer que, Derci - longe da mascara publica - era uma das pessoas mais tristes e sozinhas que já havia conhecido. Caio F. Abreu, dizia a mesma coisa de Clarice [Lispector]. E outros disseram também a mesma coisa sobre ele.

Penso que a maioria das pessoas são tristes e sozinhas - mesmo as extraordinárias. No fundo, as que dizem que não são [sozinhas], não encontraram coragem para admitir. Eu ao contrario admito: sou um “ser” completamente sozinho - na maioria das vezes triste.
Mas espera! Não quero que pense coisas como: Nossa, preciso fazer alguma coisa urgente por ele! Coisas, como ligar de vez em quando para perguntar como estou? Não iria adiantar de nada. Mesmo porque, não é o telefone – que nunca toca – que me faz solitário.
A verdade nua e crua, minha gente é que – por uma questão de pura sobrevivência - me desprendi da idéia de “grupo”, tipo família, amigos, guetos. Estas coisas, que mais nos aprisiona em jaulas, do que nos fazem sentir protegidos, amados, etc.
Mas como não é possível ficar só completamente no mundo; aprendi a linguagem das arvores. Decifrei o código do piscar silencioso dos vaga-lumes. Compreendi os segredos dos movimentos dos corpos - principalmente nos bares. Por isso sou um ser solitário. Triste ás vezes. Mas não morrerei disso, certamente.
Sabe... Desde pequeno, sou meio assim - um passo no mundo, outro de baixo da cama, do assoalho, nas copas das arvores. Um lobo solitário, como aquele livro do Hesse (Herman), “o lobo da estepe”. Fabuloso! Por isso sempre amei as historias de lobisomens que minha avó contava. E talvez por isso mesmo sinto uma tristeza medonha, quando vejo animais - sobretudo os lobos guarás - aprisionados. Se pudesse, chutaria as grades, e os deixaria ir...viver suas vidas solitárias.
(...) Hoje, me encontro um tanto triste. Serio. Meio sombrio, misterioso até... Deve ser o lobo, que me toma vez ou outra e exige seu tempo para viver através de mim... Meu totem. Meu bicho aprisionado.
Mas preciso dizer uma ultima coisa: a de que continuo acreditando nas pessoas. Sim! No amor também. Nos mistérios da vida e da morte.
Mas pintou algo novo: nas sombras, um olhar finíssimo para as arvores que se desfolham neste inverno. Uma tristeza que sobe das entranhas mais profundas, como fumaça branca que me denuncia: zonas de sombras, expostas demais. Há algo lá dentro que queima aquelas folhas caídas.
Por isso tenho andado tão só por ai. E meu lobo está à espreita. Faminto, não mata, nem morde. Apenas espera a noite chegar, enquanto aguarda em silencio em minhas zonas de sombras. (Santo)