(...) lá fora uma senhora empurra um carrinho, repleto de papelão. Meia idade,
vestido de florzinha colado ao corpo pelo suor da lida,
Chinelo de dedo gasto no calcanhar,
Peitos grandes de encontro ao ferro frio,
mãos,Pés,joelhos,coxas,
corpo em duro movimento.
Maquina, mãe, fera.
Lança que segue seu rumo, seu plumo, seu alvo:
a vida, dura e solida à frente,
A chuva cai...
limpa o rosto num respirar profundo.
Uma buzina ali na esquina,
alguém grita na porta do bar,
cidade, calçadas, café, tropeços, respingo
me olha nos olhos, cabelos escorridos, meio sorriso, vida compartilhada.
Um olhar pro céu, tempo abafado, segue seu rumo...
seu papelão, seu cachorro magro, molhado, tristonho.
fico e deixo a roda da vida rolar sem espanto,
em seu movimento de moinho de vento...
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
NUVENS ESCURAS NO CÉU
(...) E derrepente, me deu uma angustia, e aquela conhecida vontade de chorar. Não! Não é uma vontade de chorar “normal”, é uma vontade de chorar por dentro, sem lagrimas explicitas – veredas escondidas em um cerrado solitário. Bioma delicado.
É uma vontade de chorar, com nuvens carregadas, que encobrem por dias o sol... É dessa vontade de chorar que eu falo. Um choro as escuras, com tudo trovejando aqui dentro – e lá fora, a visão de um menino, que as três da manha, tenta colocar a cabeça para fora da janela, na esperança de que a chuva caia e lave seus pensamentos - e aquela água límpida, delicadamente escorrendo por lugares profundos demais, vai iluminando tudo ao redor, como fagulhas quentes e úmidas, até que tudo se cristaliza.
(...) Quando eu era bem pequeno, a chuva era um momento raro de felicidade em meio a tantas “necessidades”. Se calma, a gente dormia. Se tempestade, era hora de se esconder de baixo da mesa da cozinha. Daí, como sempre acontecia, a vó jogava os ramos da ultima procissão nas brasas do fogão. Rezava baixinho, e a chuva lá fora ia se aquietando. Eu gostava destes momentos, pois quase sempre - eu e o meu irmão - dormíamos enrolados numa coberta de retalhos, encolhidos como gatos por sob a mesa. Ali na beirada do fogão. Quando acordava: café novinho, bolinho de garrafa, poças d’água, arco-íris ao longe, e aquele cheiro de mato molhado. Ah!Tudo era uma felicidade só.
Noutras vezes, sempre de noite e escondido da mãe, eu abria a tramela da janela bem devagarzinho, pra não acordar ninguém. Passava horas espiando a chuva. Colocava a mão pra fora, punha na boca. Sentia o gosto de barro das telhas. Então, ficava pensando no caminho que as nuvens faziam, para chegar até ali. Havia em mim, uma vontade imensa de voar. Voar completamente nu e no absoluto escuro.
Quando era dia, e a chuva se armava lá no alto do espigão, trazia aquele cheiro de terra... Eu corria, e pegava minhas asas de papelão. Esperava, esperava... O vento vinha... então eu fechava os olhos, batia as asas e dentro de mim mesmo, voava - como uma pipa, um pássaro, ou como todas as coisas que como eu, tinham asas.
(...) Hoje, eu fico ali naquela janela, esperando que a água jorre de alguma mina escondida, de algum pico nevado e distante. De que o tempo passe e se evapore e que de alguma forma estranha e mágica, forme tantas tempestades quanto possível. E que uma delas se apresse em chegar. De que em seu tempo caia a chuva, e que ela lave todas as estatuas sujas das praças; as folhas das arvores da rua; os prédios cinza ao longe, e a alma triste daqueles meninos que nasceram sem asas.
É nesta esperança vazia que me apego. De que tudo possa ficar limpo, de que de alguma maneira eu possa sentir novamente meus pés se elevarem do chão, e completamente imbuído da minha capacidade infantil de voar, encontre o caminho alado e exato das coisas não permitidas...
(...) Mas a tempestade nunca vem, e a garganta fica seca demais para gritar. Então choro, para regar a infância perdida, pela busca nunca alcançada e que me leva sempre mais longe. E pela sede do menino, que volta sempre, sobretudo nas madrugadas empoeiradas. (Santo)
(...) E derrepente, me deu uma angustia, e aquela conhecida vontade de chorar. Não! Não é uma vontade de chorar “normal”, é uma vontade de chorar por dentro, sem lagrimas explicitas – veredas escondidas em um cerrado solitário. Bioma delicado.
É uma vontade de chorar, com nuvens carregadas, que encobrem por dias o sol... É dessa vontade de chorar que eu falo. Um choro as escuras, com tudo trovejando aqui dentro – e lá fora, a visão de um menino, que as três da manha, tenta colocar a cabeça para fora da janela, na esperança de que a chuva caia e lave seus pensamentos - e aquela água límpida, delicadamente escorrendo por lugares profundos demais, vai iluminando tudo ao redor, como fagulhas quentes e úmidas, até que tudo se cristaliza.
(...) Quando eu era bem pequeno, a chuva era um momento raro de felicidade em meio a tantas “necessidades”. Se calma, a gente dormia. Se tempestade, era hora de se esconder de baixo da mesa da cozinha. Daí, como sempre acontecia, a vó jogava os ramos da ultima procissão nas brasas do fogão. Rezava baixinho, e a chuva lá fora ia se aquietando. Eu gostava destes momentos, pois quase sempre - eu e o meu irmão - dormíamos enrolados numa coberta de retalhos, encolhidos como gatos por sob a mesa. Ali na beirada do fogão. Quando acordava: café novinho, bolinho de garrafa, poças d’água, arco-íris ao longe, e aquele cheiro de mato molhado. Ah!Tudo era uma felicidade só.
Noutras vezes, sempre de noite e escondido da mãe, eu abria a tramela da janela bem devagarzinho, pra não acordar ninguém. Passava horas espiando a chuva. Colocava a mão pra fora, punha na boca. Sentia o gosto de barro das telhas. Então, ficava pensando no caminho que as nuvens faziam, para chegar até ali. Havia em mim, uma vontade imensa de voar. Voar completamente nu e no absoluto escuro.
Quando era dia, e a chuva se armava lá no alto do espigão, trazia aquele cheiro de terra... Eu corria, e pegava minhas asas de papelão. Esperava, esperava... O vento vinha... então eu fechava os olhos, batia as asas e dentro de mim mesmo, voava - como uma pipa, um pássaro, ou como todas as coisas que como eu, tinham asas.
(...) Hoje, eu fico ali naquela janela, esperando que a água jorre de alguma mina escondida, de algum pico nevado e distante. De que o tempo passe e se evapore e que de alguma forma estranha e mágica, forme tantas tempestades quanto possível. E que uma delas se apresse em chegar. De que em seu tempo caia a chuva, e que ela lave todas as estatuas sujas das praças; as folhas das arvores da rua; os prédios cinza ao longe, e a alma triste daqueles meninos que nasceram sem asas.
É nesta esperança vazia que me apego. De que tudo possa ficar limpo, de que de alguma maneira eu possa sentir novamente meus pés se elevarem do chão, e completamente imbuído da minha capacidade infantil de voar, encontre o caminho alado e exato das coisas não permitidas...
(...) Mas a tempestade nunca vem, e a garganta fica seca demais para gritar. Então choro, para regar a infância perdida, pela busca nunca alcançada e que me leva sempre mais longe. E pela sede do menino, que volta sempre, sobretudo nas madrugadas empoeiradas. (Santo)

Minhas zonas de sombra
“Quer saber quem sou? Olhe para as arvores do bosque: todas em completo silencio, enquanto murmuram suas orações”.
Li Maria Adelaide Amaral dizer que, Derci - longe da mascara publica - era uma das pessoas mais tristes e sozinhas que já havia conhecido. Caio F. Abreu, dizia a mesma coisa de Clarice [Lispector]. E outros disseram também a mesma coisa sobre ele.
Penso que a maioria das pessoas são tristes e sozinhas - mesmo as extraordinárias. No fundo, as que dizem que não são [sozinhas], não encontraram coragem para admitir. Eu ao contrario admito: sou um “ser” completamente sozinho - na maioria das vezes triste.
Mas espera! Não quero que pense coisas como: Nossa, preciso fazer alguma coisa urgente por ele! Coisas, como ligar de vez em quando para perguntar como estou? Não iria adiantar de nada. Mesmo porque, não é o telefone – que nunca toca – que me faz solitário.
A verdade nua e crua, minha gente é que – por uma questão de pura sobrevivência - me desprendi da idéia de “grupo”, tipo família, amigos, guetos. Estas coisas, que mais nos aprisiona em jaulas, do que nos fazem sentir protegidos, amados, etc.
Mas como não é possível ficar só completamente no mundo; aprendi a linguagem das arvores. Decifrei o código do piscar silencioso dos vaga-lumes. Compreendi os segredos dos movimentos dos corpos - principalmente nos bares. Por isso sou um ser solitário. Triste ás vezes. Mas não morrerei disso, certamente.
Sabe... Desde pequeno, sou meio assim - um passo no mundo, outro de baixo da cama, do assoalho, nas copas das arvores. Um lobo solitário, como aquele livro do Hesse (Herman), “o lobo da estepe”. Fabuloso! Por isso sempre amei as historias de lobisomens que minha avó contava. E talvez por isso mesmo sinto uma tristeza medonha, quando vejo animais - sobretudo os lobos guarás - aprisionados. Se pudesse, chutaria as grades, e os deixaria ir...viver suas vidas solitárias.
(...) Hoje, me encontro um tanto triste. Serio. Meio sombrio, misterioso até... Deve ser o lobo, que me toma vez ou outra e exige seu tempo para viver através de mim... Meu totem. Meu bicho aprisionado.
Mas preciso dizer uma ultima coisa: a de que continuo acreditando nas pessoas. Sim! No amor também. Nos mistérios da vida e da morte.
Mas pintou algo novo: nas sombras, um olhar finíssimo para as arvores que se desfolham neste inverno. Uma tristeza que sobe das entranhas mais profundas, como fumaça branca que me denuncia: zonas de sombras, expostas demais. Há algo lá dentro que queima aquelas folhas caídas.
Por isso tenho andado tão só por ai. E meu lobo está à espreita. Faminto, não mata, nem morde. Apenas espera a noite chegar, enquanto aguarda em silencio em minhas zonas de sombras. (Santo)
“Quer saber quem sou? Olhe para as arvores do bosque: todas em completo silencio, enquanto murmuram suas orações”.
Li Maria Adelaide Amaral dizer que, Derci - longe da mascara publica - era uma das pessoas mais tristes e sozinhas que já havia conhecido. Caio F. Abreu, dizia a mesma coisa de Clarice [Lispector]. E outros disseram também a mesma coisa sobre ele.
Penso que a maioria das pessoas são tristes e sozinhas - mesmo as extraordinárias. No fundo, as que dizem que não são [sozinhas], não encontraram coragem para admitir. Eu ao contrario admito: sou um “ser” completamente sozinho - na maioria das vezes triste.
Mas espera! Não quero que pense coisas como: Nossa, preciso fazer alguma coisa urgente por ele! Coisas, como ligar de vez em quando para perguntar como estou? Não iria adiantar de nada. Mesmo porque, não é o telefone – que nunca toca – que me faz solitário.
A verdade nua e crua, minha gente é que – por uma questão de pura sobrevivência - me desprendi da idéia de “grupo”, tipo família, amigos, guetos. Estas coisas, que mais nos aprisiona em jaulas, do que nos fazem sentir protegidos, amados, etc.
Mas como não é possível ficar só completamente no mundo; aprendi a linguagem das arvores. Decifrei o código do piscar silencioso dos vaga-lumes. Compreendi os segredos dos movimentos dos corpos - principalmente nos bares. Por isso sou um ser solitário. Triste ás vezes. Mas não morrerei disso, certamente.
Sabe... Desde pequeno, sou meio assim - um passo no mundo, outro de baixo da cama, do assoalho, nas copas das arvores. Um lobo solitário, como aquele livro do Hesse (Herman), “o lobo da estepe”. Fabuloso! Por isso sempre amei as historias de lobisomens que minha avó contava. E talvez por isso mesmo sinto uma tristeza medonha, quando vejo animais - sobretudo os lobos guarás - aprisionados. Se pudesse, chutaria as grades, e os deixaria ir...viver suas vidas solitárias.
(...) Hoje, me encontro um tanto triste. Serio. Meio sombrio, misterioso até... Deve ser o lobo, que me toma vez ou outra e exige seu tempo para viver através de mim... Meu totem. Meu bicho aprisionado.
Mas preciso dizer uma ultima coisa: a de que continuo acreditando nas pessoas. Sim! No amor também. Nos mistérios da vida e da morte.
Mas pintou algo novo: nas sombras, um olhar finíssimo para as arvores que se desfolham neste inverno. Uma tristeza que sobe das entranhas mais profundas, como fumaça branca que me denuncia: zonas de sombras, expostas demais. Há algo lá dentro que queima aquelas folhas caídas.
Por isso tenho andado tão só por ai. E meu lobo está à espreita. Faminto, não mata, nem morde. Apenas espera a noite chegar, enquanto aguarda em silencio em minhas zonas de sombras. (Santo)
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