quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

NUVENS ESCURAS NO CÉU

(...) E derrepente, me deu uma angustia, e aquela conhecida vontade de chorar. Não! Não é uma vontade de chorar “normal”, é uma vontade de chorar por dentro, sem lagrimas explicitas – veredas escondidas em um cerrado solitário. Bioma delicado.
É uma vontade de chorar, com nuvens carregadas, que encobrem por dias o sol... É dessa vontade de chorar que eu falo. Um choro as escuras, com tudo trovejando aqui dentro – e lá fora, a visão de um menino, que as três da manha, tenta colocar a cabeça para fora da janela, na esperança de que a chuva caia e lave seus pensamentos - e aquela água límpida, delicadamente escorrendo por lugares profundos demais, vai iluminando tudo ao redor, como fagulhas quentes e úmidas, até que tudo se cristaliza.

(...) Quando eu era bem pequeno, a chuva era um momento raro de felicidade em meio a tantas “necessidades”. Se calma, a gente dormia. Se tempestade, era hora de se esconder de baixo da mesa da cozinha. Daí, como sempre acontecia, a vó jogava os ramos da ultima procissão nas brasas do fogão. Rezava baixinho, e a chuva lá fora ia se aquietando. Eu gostava destes momentos, pois quase sempre - eu e o meu irmão - dormíamos enrolados numa coberta de retalhos, encolhidos como gatos por sob a mesa. Ali na beirada do fogão. Quando acordava: café novinho, bolinho de garrafa, poças d’água, arco-íris ao longe, e aquele cheiro de mato molhado. Ah!Tudo era uma felicidade só.
Noutras vezes, sempre de noite e escondido da mãe, eu abria a tramela da janela bem devagarzinho, pra não acordar ninguém. Passava horas espiando a chuva. Colocava a mão pra fora, punha na boca. Sentia o gosto de barro das telhas. Então, ficava pensando no caminho que as nuvens faziam, para chegar até ali. Havia em mim, uma vontade imensa de voar. Voar completamente nu e no absoluto escuro.

Quando era dia, e a chuva se armava lá no alto do espigão, trazia aquele cheiro de terra... Eu corria, e pegava minhas asas de papelão. Esperava, esperava... O vento vinha... então eu fechava os olhos, batia as asas e dentro de mim mesmo, voava - como uma pipa, um pássaro, ou como todas as coisas que como eu, tinham asas.

(...) Hoje, eu fico ali naquela janela, esperando que a água jorre de alguma mina escondida, de algum pico nevado e distante. De que o tempo passe e se evapore e que de alguma forma estranha e mágica, forme tantas tempestades quanto possível. E que uma delas se apresse em chegar. De que em seu tempo caia a chuva, e que ela lave todas as estatuas sujas das praças; as folhas das arvores da rua; os prédios cinza ao longe, e a alma triste daqueles meninos que nasceram sem asas.

É nesta esperança vazia que me apego. De que tudo possa ficar limpo, de que de alguma maneira eu possa sentir novamente meus pés se elevarem do chão, e completamente imbuído da minha capacidade infantil de voar, encontre o caminho alado e exato das coisas não permitidas...

(...) Mas a tempestade nunca vem, e a garganta fica seca demais para gritar. Então choro, para regar a infância perdida, pela busca nunca alcançada e que me leva sempre mais longe. E pela sede do menino, que volta sempre, sobretudo nas madrugadas empoeiradas. (Santo)

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